PARTEIRAS, REZADEIRAS E CURANDEIRAS

19/6/2017, 10:40h
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Decano dos estudiosos da vida feirense, o escritor Antônio Moreira Ferreira, também conhecido como “Antônio do Lajedinho”, brinda seus leitores com a crônica “Parteiras, Rezadeiras e Curandeiras”.  Vale a pena ver de novo:

- Muitas pessoas ficam admiradas quando conto que a mulher que me deu aquelas palmadinhas após o nascimento, a parteira, era uma velha analfabeta, sem qualquer noção de higiene.

Foi assim comigo, em 1925, e continuou assim na década de 30 para as pessoas que não tinham recursos para pagar a um médico.

O interessante das parteiras mais antigas era o material usado para o parto: um pedaço de pano velho, mais um pedaço de cordão usado e uma tesoura sem qualquer desinfecção, e muitas folhas.

Logicamente com o uso de tais materiais dava-se, na maioria das vezes, o “mal de sete dias” (hoje sabemos que era o tétano).

Muitas daquelas parteiras eram também “rezadeiras”, principalmente as descendentes de escravos. Sempre rezavam contra o “mau olhado”, torcicolo e dores de um modo geral, inclusive dor de dentes.

Conheci uma dessas “rezadeiras”. Chamava-se Maria, mãe de Lió e avó de Clodiltes. Só a neta havia nascido de “ventre livre”.

Moravam em um casebre na Rua Manoel Vitorino e a velha havia sido escrava da família de D. Deodora, mãe de Julieta e avó de Dival, Valdir, Dete e Diva Pitombo.

Mas a “rezadeira” mais conhecida e com tradição de pitonisa infalível era a curandeira ou mãe-de-santo conhecida por Mãe Filhinha.

Residia em um pequeno povoado onde era a maior autoridade. Semanalmente dançavam o candomblé e periodicamente fazia uma festa em louvor a Iansã, para onde convergiam todos os moradores da região.

Havia em Feira de Santana um grande número de pequenos comerciantes de miudezas, os quais vendiam de tudo, desde o alfinete, bijuterias, perfumaria etc.

Quando acontecia a festa de Iansã na povoação de Mãe Filhinha, ela vinha à casa daqueles comerciantes convidá-los pessoalmente, avisando que não aceitava desculpas.

Um dia assim o fez com o comerciante Zezé Bacoteiro e seu futuro genro Chiquinho. E eles garantiram que se fariam presentes.

Por uma dessas coincidências, naqueles dias da festa de Iansã estava havendo, em uma Vila adiante, uma Missão católica que juntava mais gente.

Como a povoação ficava no caminho da Vila, os dois comerciantes passaram pela  casa de Mãe Filhinha e avisaram que voltariam no dia da festa.

Mas na Missão estavam ganhando muito dinheiro e Chiquinho não quis voltar. Adepto da velha curandeira, Zezé Bacoteiro, depois de muito insistir para voltar, deixou a cargo do genro a justificativa pela quebra do compromisso, avisando que não adiantava desculpas, pois ela adivinhava tudo.

Foi com aquela conversa que, dias depois, ambos chegaram à porta da velha que, ao avistá-los, anunciou:

- “Não adiante desculpas, pois sei de tudo”

Chiquinho, que era incrédulo, retrucou:

- “Se a senhora já sabe, não precisa a gente dizer”

- “Mas diga assim mesmo”, insistiu a pitonisa.

E Chiquinho narrou a mentira que havia planejado:

- “Nós colocamos os animais em um pasto de aluguel e quando fomos pegá-los para vir para cá, faltou um animal e em seu lugar havia outro trocado. Fomos atrás do autor da troca e perdemos dois dias”

- “Eu já sabia”, retrucou a velha e acrescentou:

- “Na hora que o sujeito estava pegando o animal eu vi daqui e ainda falei – largue aí que tem dono...” (Adilson Simas)


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Foto: Divulgação
 
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